Por Ricardo Guilherme
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As primeiras determinações referentes à criação em Fortaleza de um teatro vinculado ao Estado datam de 1858, quando o então vice-presidente da Província do Ceará providencia a compra de um terreno na praça Pedro II, em frente à Catedral, para que nele seja construída uma casa de espetáculos.
A idéia não vingou mas ressurge em 1864, por iniciativa do Presidente da Província, Bento Figueiredo Júnior, que decide construir um teatro oficial na então Praça do Patrocínio, atual Praça José de Alencar. A pedra fundamental desse novo teatro, cujo nome seria Santa Teresa, chega a ser fixada, mas novamente o empreendimento não se concretiza.
Em 1872, volta-se a cogitar a idéia de um teatro estatal. Adolfo Herbster e José Pompeu de Albuquerque Cavalcante seriam os construtores. Este projeto de engenharia, no entanto, também foi frustrado.
Em 1894, outra vez a praça do Patrocínio, agora denominada Marquês de Herval, é o local escolhido para sediar o teatro que o Estado continua tentando construir. O então Presidente do Ceará, José Freire Bezerril Fontenele toma a iniciativa de autorizar a instalação dos alicerces no centro da praça. Seu sucessor, Antônio Pinto Nogueira Acioly, em 1896, empreende esforços no sentido de impedir a continuidade desse processo de construção e no ano seguinte promove concurso de projetos para que o teatro seja erguido noutro local.
Entretanto, somente em meados de 1904, quando reassume o comando do Estado, para um novo quadriênio, Acioly promulga lei relativa à construção do teatro que, a partir de 1908, passou a ser construído não no centro da então Praça Marquês de Herval, como anteriormente se previa, mas num dos lados da praça, no lugar onde hoje está o prédio, à época situado entre a Escola Normal (atual sede do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) e o Batalhão de Segurança do Estado (terreno em que funcionou o Centro de Saúde, demolido na reforma de 1974 para dar lugar aos jardins laterais do TJA).
Em junho de 1908, as obras do novo espaço cênico que daí em diante seria denominado Theatro José de Alencar foram iniciadas, sob o comando de Raimundo Borges Filho. A estrutura de ferro veio de Glasgow, na Escócia, para ser montada em Fortaleza, segundo modelo concebido por engenheiros da Firma Walter MacFarlane. Ao tenente da Arma de Artilharia do Exército, Bernardo José de Melo, coube a concepção da parte do edifício em alvenaria. A cenotécnica ficou a cargo do arquiteto mineiro Herculano Ramos, que em seus trabalhos contou com a colaboração de Gustavo Barroso, então aluno do Liceu, aprendiz de cenografia.
Até as três primeiras décadas desse nosso século, era de praxe pintar as cortinas dos teatros com paisagens e figuras, e no chamado pano de boca do teatro Herculano Ramos pintou, em 1910, uma cena do romance Iracema, em que aparecem a protagonista, Martim Soares Moreno e um Pajé, entre carnaubeiras, flores e xiquexiques. Acima da boca de cena foi afixada uma obra de Rodolfo Amoedo na qual uma herma do patrono do teatro aparece sendo coroada pela História, representada por uma figura feminina. Ao redor, presentes à solenidade de coroação, estão alguns personagens criados pelo romancista. Compondo a paisagem, ao fundo, uma vegetação característica do sertão cearense, em folhagens amarelecidas, como se crestadas pelo sol.
As demais obras expostas nas paredes, teto, frisas e camarotes do teatro são da autoria dos pintores Jacintho Gomes de Mattos, José de Paula Barros, João Vicente de Souza e Raimundo Ramos Filho, o famoso Ramos Cotoco.
Em 17 de junho de 1910, após dois anos de espera, finalmente, a inauguração. A solenidade integra a programação de homenagens do Partido Republicano do Ceará ao seu líder, o oligarca Nogueira Acioly. O jornal A República, de 18 de junho de 1910 descreve a cerimônia, citando o momento tão esperado em que Acioly bate um martelo na mesa colocada no centro do palco e declara inaugurado o Theatro José de Alencar. Em seguida, refere-se ao discurso proferido por Júlio César da Fonseca Filho - Afinal, temos um teatro e todos nós o vemos materialmente considerado. O teatro, porém, não está só na sua arquitetura mas sobretudo na sua moral, no espírito que o deve dominar.
Depois dessas ações protocolares, inicia-se a apresentação da orquestra do Batalhão de Segurança do Estado, executando a Protofonia da ópera O Guarani, de Carlos Gomes, sob a regência do maestro Luigi Maria Smido. Participam também do programa os cantores Porfírio Santos, Maria Amélia Jorge, Joana Ugolini Santos, a violinista Esther Gondim e a pianista Olímpia Bastos.
De 18 de junho a 19 de agosto de 1910, não há nos jornais registro de atividades artísticas realizadas no teatro. Somente a 20 de agosto, decorridos dois meses desde a solenidade inaugural, o José de Alencar reabre as portas para uma série de três concertos do violinista brasileiro Nicolino Milano e do pianista português Theophilo Russel.
A 23 de setembro, finalmente, ocorre a primeira montagem teatral, com a encenação de O Dote, texto de Arthur Azevedo montado pela Companhia da atriz Lucilía Perez, oriunda do Rio de Janeiro. A temporada de dramas, dramalhões, comédias e burletas prolongou-se até novembro, com as peças As Doutoras, de Franca Júnior e A Dama das Camélias, de Alexandre Dumas Filho, dentre outras do repertório de 42 títulos. Protagonizam o elenco, além de Lucília Perez, o galã Antônio Ramos e a consagrada Gabriela Montani.
Nessa época, sob a coordenação de Faustino de Albuquerque Souza, seu primeiro diretor, o José de Alencar, subordinado à Secretaria do Interior e Justiça, começa a pôr em prática um rigoroso regulamento interno, que, entre normas e sanções, chega a prever censuras, repreensões e multas para artistas que por gestos ou entonações desvirtuem o pensamento dos autores ou ofendam a moral e o decoro. Aos espectadores, era proibido fumar em qualquer das dependências do teatro, como também conservar o chapéu na cabeça durante as representações. Outra proibição dizia respeito à atuação de cambistas que deveriam ser presos, se comprovada a infração. O regulamento prevê ainda a realização no TJA de bailes carnavalescos e a contratação de um médico para dar plantão durante as récitas, a fim de socorrer eventualmente algum componente de elenco.
A equipe pioneira de funcionários do teatro, formada dentre outros pelo porteiro Alfredo Alves Cavalcante e por Francisco da Costa e Antônio Fialho, teve algumas vezes de ser acionada até mesmo para conter a platéia da torrinha que, segundo relata o jornal A República, de outubro de 1910, às vezes perturba os espetáculos fazendo comentários jocosos sobre as personagens em cena, atirando setas de papel nos espectadores e até cuspindo sobre as pessoas acomodadas nas frisas.
Também na torrinha do velho teatro um hábito genuinamente fortalezense parece ter se consolidado em 1910: tocar castanholas, ou seja, friccionar os dedos médio e polegar um contra o outro, numa demonstração de aplauso discreto. É atitude observada até hoje mas já condenada nesses primeiros tempos, pelos colunistas.
Ao longo de noventa e quatro anos, com reformas e restaurações, esse mesmo povo que a geral do TJA tão bem sintetiza soube preservar esse centro cultural do Ceará, tombado como monumento pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, em 1964. Porque o cearense sabe que o Theatro José de Alencar é uma herança não da oligarquia Acioly que o construiu e o inaugurou, oligarquia que o povo ajudou a derrubar em 1912, mas um espaço público, um legado da nossa história que os governos devem gerenciar em nome do Estado, que pertence a todos nós.