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Marcelo Costa
Vou lhe prestigiar
Você esbarra na rua com alguém que não via há milhares de anos. Alguém saído do túnel do tempo, quando você está atrasado para algum com-promisso, e lhe para e começa a falar pelos cotovelos. A primeira coisa é per-guntar como "vai o teatro?" e logo em seguida diz: "O povo do Ceará não gosta de teatro, ninguém valoriza teatro" como se ele valorizasse, como se ele fosse freqüentador assíduo do teatro. A culpa sempre é dos outros. Se você pergunta quando foi a última vez que ele foi ao teatro, ele para, pensa, pensa, tenta se lembrar, e com dificuldade diz qualquer coisa, mas é que não se lem-bra do nome da peça.
As vezes tem a cara de pau e lhe pede uma "cortesia". Um deles veio a minha sala, expressamente pedir cortesia e quando lhe dei, disse: "hoje à noite vou lhe prestigiar". Essa eu não engoli. Disse que quem estava sento prestigi-ado era ele. Coloquei os pintos nos iis. Cada macaco no seu galho.
Todo mundo quer ir ao teatro de graça. O dinheiro só dá para mesa de bar. Na bilheteria chega sempre uma "autoridade" esfregando uma carteira na cara do bilheteiro. Tem direito. Invocam uma lei e trazem acompanhante. Nós é que temos então, a obrigação de trabalhar de graça para eles. Teve um che-gou da Europa e veio falar comigo. Reclamou do preço do ingresso, que pa-gou em Paris, Roma, etc. e foi logo me pedindo "cortesia". É um desaforo. Engulo muito sapo todo dia.
Jorge Ritchie tem um amigo que viu teatro em Londres, ficou encantado e disse: "Numa mais vou a teatro em Fortaleza". Coitado, devia dizer o contrá-rio: "Agora vou sempre ao teatro em Fortaleza, para ajuda-lo a se desenvolver como o de Londres". Arte não nasce como capim. É preciso ser cultivada. O teatro de Londres, o ballet russo, a ópera italiana, não nasceram por geração espontânea. Foi preciso ser cultivado pelo seu público, pelos seus governantes.
Palco & Platéia.
Garcia Lorca.